A fome insaciável de nossos políticos

A polêmica sobre o aumento de 112,7% no valor do auxílio-alimentação pago aos servidores da Câmara de Taubaté é o mais novo exemplo de como nossos governantes atuam em desacordo com o que esperam aqueles que os elegeram.

Em uma só canetada, vereadores decidiram que todos os funcionários da Casa passariam a ganhar, em vez de R$ 220, R$ 467,95 extras todo mês. O impacto disso até o fim dessa legislatura, em 2020, será de R$ 1,3 milhão.

A medida não vale apenas para os servidores que têm os menores salários.  Até o procurador-chefe da Câmara, que ganha quase R$ 18 mil por mês, terá direito a esse extra. Afinal, será que ele conseguiria se alimentar bem se não recebesse esse auxílio?

Para efeito de comparação, o servidor da prefeitura que tem salário de até 1.787,07 ganha uma cesta básica de R$ 83,10. Para salários maiores, não há esse benefício.

O novo vale da Câmara representa 42% do salário mínimo pago em São Paulo. Se você é um trabalhador comum, precisa dar um jeito de, com R$ 1.108,38, pagar não apenas sua alimentação, mas também aluguel, contas de água e energia, escola dos filhos. Que diferença entre a vida real e a Ilha da Fantasia, não?

Calma, a história ainda piora. Como o jornal revelou, esse aumento foi justificado pela Câmara com base em um estudo inexistente. É sério: vereadores de Taubaté, a segunda maior cidade da nossa região, usaram dados ‘fantasmas’ para justificar a medida.

Em um mundo ideal, se sobra dinheiro na Câmara, ele é devolvido para a prefeitura, que no ano seguinte aproveita para construir mais creches, mais casas, fazer mais obras.

No nosso mundo real (e surreal), a Câmara procura desculpas para dividir internamente o dinheiro público. Já foi assim com o ‘abono de Natal’ (que vigorou de 2009 a 2013, até ser suspenso pela Justiça), é assim com a farra das diárias (é a Câmara que mais gasta com viagens na região). A fome dos nossos políticos só não é mais impressionante do que a passividade dos eleitores ante tudo isso.