Vazamentos, explicações e a imprensa

A história sobre o vazamento dos diálogos entre o então juiz federal Sérgio Moro e procuradores da Lava Jato é bem complexa. Como já dito pelo jornalista Glenn Greenwald, fundador do site The Intercept Brasil, a divulgação do material extraído de conversas no aplicativo Telegram pode se estender por meses, anos… mas uma conclusão já é possível: o atual ministro da Justiça e os integrantes da força-tarefa cometem um erro grosseiro ao atacarem a equipe do veículo responsável pelas reportagens da tal ‘VazaJato’.

Sem apresentar qualquer prova, por exemplo, Moro chegou a classificar o The Intercept como “site aliado a hackers criminosos”. Procuradores da Lava Jato fizeram o mesmo. Até o presidente da República, Jair Bolsonaro (PSL), agiu de forma inconsequente ao dar vazão, publicamente, a boatos espalhados por um perfil chamado Pavão Misterioso.

Assim como fez o The Intercept, qualquer outro veículo de jornalismo teria a obrigação de publicar esses diálogos, caso os recebesse. Se tivessem ido parar nas mãos de outro jornalista, as conversas teriam teor diferente? Pelo jeito, não.

Se houve uma invasão dos celulares de um ministro e de procuradores, isso é um fato grave. E que deve ser investigado, para que os responsáveis sejam identificados e punidos. Mas, seja qual for a fonte do vazamento, o teor das conversas divulgadas sugere outro fato de gravidade ainda maior: a existência de uma relação indevida entre juiz e procuradores da Lava Jato, que pode comprometer a maior operação de combate à corrupção da história do país.

Após duas semanas de vazamentos de um lado, e tentativas de explicações do outro, o saldo é: nenhuma justificativa apresentada até agora foi suficiente para afastar todas as suspeitas levantadas contra os principais nomes da operação. Aliás, bem longe disso.

Como os vazamentos têm ocorrido a conta-gotas, a própria estratégia adotada por Moro e pelos procuradores parece uma confissão de culpa, já que traz, ao mesmo tempo, um plano A (que tenta ser válido para o que já foi divulgado) e um plano B (caso se comprove que os diálogos são verdadeiros). Plano A: não reconhecemos a veracidade das mensagens. Plano B: se forem verdadeiras, não tem nada demais nelas.
Como algumas mensagens já foram autenticadas pelos interlocutores (como no caso do diálogo entre Moro e a senadora Mara Gabrilli) e há quase consenso entre especialistas que os diálogos apontam irregularidades na condução da operação, os esclarecimentos são insuficientes.

Moro e os procuradores sempre disseram que a Lava Jato estava sob ataque. Não se imaginava, porém, que eles fossem os responsáveis por colocar a operação em risco. É hora de mostrarem se continuam com as mãos limpas.