As vitrines podem virar vidraças

Vitrine. Segundo o dicionário, trata-se de um “compartimento cuja face principal é envidraçada, no qual se expõem mercadorias”. Já no jargão político, o termo é usado para se referir às principais obras, projetos ou ações de um governo, àquelas de maior visibilidade, com potencial para serem exploradas entre os eleitores.

Nas últimas semanas, na região, manchas consideráveis apareceram nas vitrines dos prefeitos de São José dos Campos e Taubaté.

No caso de São José, a vitrine de Felicio Ramuth (PSDB) é o Arco da Inovação, a ponte estaiada construída no local na antiga rotatória do Colinas. O projeto foi apresentado pelo tucano em 2018, como uma aposta para solucionar os congestionamentos. Desde o início, especialistas em trânsito, Ministério Público e Defensoria Pública apontavam falhas. Diziam que uma ponte estaiada não era a melhor solução, e que a Prefeitura deveria ter estudado outras alternativas. Nada disso freou Felicio, que em abril desse ano liberou o tráfego no Arco, após um gasto de R$ 60,972 milhões.

Agora, veio a constatação. Designada pela Justiça em processo movido pelo MP e pela Defensoria, a UFABC (Universidade Federal do ABC) concluiu que a ponte estaiada “perderá a qualidade de suas funções já a partir de 2025” – ou seja, em quatro anos e meio já não será capaz de desafogar o trânsito no local.

A perícia também concluiu que o Arco tem capacidade de absorver apenas 12% a mais de veículos do que um cenário que contasse apenas com otimização semafórica. Ou seja, com gasto quase zero, somente reprogramando tempos de semáforos, seria possível obter resultado parecido.

E tudo isso sem contar a questão mal explicada do BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento). Como a obra não foi financiada pelo banco, ao contrário do que disse o governo Felicio até o fim de 2019, o recurso poderia ter sido aplicado em qualquer outra ação. Dava para construir 30 creches, com 300 vagas cada, por exemplo.

Em Taubaté, a vitrine de Ortiz Junior (PSDB) é o pacote de obras do CAF (Banco de Desenvolvimento da América Latina). Mas agora descobriu-se que o tucano mentiu ao dizer que havia uma espécie de seguro no empréstimo contra a alta do dólar, que limitaria a moeda americana a R$ 3,60 no ato do pagamento da operação. Ou seja, com o dólar nas alturas, a Prefeitura pode ter que pagar o dinheiro por um valor muito maior do que recebeu. E o pior, para Ortiz, é que o provável pré-candidato do PSDB à sucessão tem como principal ponto no currículo ser o ‘Pai do CAF’, já que o ex-secretário Eduardo Cursino era o gestor do programa desde o início.

A conclusão, na política, é: quando uma vitrine não tem a transparência necessária, pode virar uma vidraça..