Nova era no Palácio do Bom Conselho

Eu nasci no dia 11 de março de 1982. Depois disso, se passaram mais 249 dias até que, em 15 de novembro, o engenheiro José Bernardo Ortiz recebeu 22.291 votos e foi eleito prefeito de Taubaté para seu primeiro mandato.

No dia 1º de fevereiro de 1983, antes que eu completasse um ano de idade, Bernardo Ortiz tomava posse na Prefeitura. Ele não sabia, mas era o começo de uma longa era. Desde então, passados 38 anos e mais oito eleições, todos os prefeitos que administraram Taubaté ou eram da família Ortiz (que ficou 22 anos no poder) ou chegaram ao cargo após indicação do clã.

É muito tempo. Desconsiderando a reta final do mandato de Waldomiro Carvalho, que se encerrou em 13 de maio de 1982, e o mandato tampão de Moacyr Freire, até 31 de janeiro de 1983, na prática eu só vivi em uma Taubaté sob forte influência de uma mesma família. Uma influência, aliás, que poderia ter sido ainda maior se os três sucessores indicados por Bernardo Ortiz – Salvador Khuriyeh, Mário Ortiz e Roberto Peixoto – tivessem aceitado a tentativa de ingerência do ex-prefeito. Como não aceitaram, foram chamados de traidores pela figura mais icônica da política taubateana e ganharam o apelido de ‘Iscariotes’, em referência a Judas Iscariotes.

Quase quatro décadas se passaram. Nesse tempo, eu tive uma infância muito feliz, marcada principalmente por brincadeiras de rua. Futebol, pega-pega, esconde-esconde. Quase sempre num mesmo lugar, a Praça do Bom Conselho, onde eu morei desde que nasci até o ano passado. Nessa mesma praça fica a sede da Prefeitura. Da adolescência em diante, o tempo que eu ficava na praça não era mais o mesmo, mas era por ela que eu passava quando saia para estudar ou trabalhar e quando voltava para casa, ao fim do dia.

Nesses 38 anos, a partir de decisões tomadas em um prédio que fica na mesma praça, Taubaté somou avanços em algumas áreas, observou descaso em outras e sofreu com episódios vergonhosos. Teve prefeito com mandato cassado. Teve prefeito preso. Dos quatro ex-prefeitos vivos, por exemplo, apenas um não é ‘ficha suja’.
No último dia 15 de novembro, exatos 38 anos após o eleitorado dizer o primeiro ‘sim’ para a família Ortiz, o taubateano decidiu dizer ‘não’ para a família. Não aceitou o candidato indicado pelo clã, Eduardo Cursino, que foi derrotado ainda no primeiro turno.

Uma era, que durou quase 40 anos, chegará ao fim quando Ortiz Junior deixar a Prefeitura em 31 de dezembro. Dizem que políticos e fraldas devem ser trocados de tempos em tempos, pelo mesmo motivo. Como taubateano, espero que o futuro prefeito, seja José Saud ou Loreny, seja capaz de conduzir a cidade com sabedoria e competência. Já havia passado da hora de o Palácio do Bom Conselho ter um inquilino diferente.

Pesquisas mudam rumo de campanhas

A campanha eleitoral começou oficialmente em 27 de setembro, mas em São José dos Campos e em Taubaté, na prática, ela teve um divisor de águas entre os dias 15 e 20 de outubro, quando foram divulgadas as primeiras pesquisas nas duas cidades.
E esse divisor de águas teve efeitos diferentes nos dois municípios. Em São José, foi um balde de água fria sobre a cabeça de 10 dos 11 candidatos ao Paço, ao mostrar Felicio Ramuth (PSDB) beirando a metade das intenções de voto – o tucano atingiu 47,4% no levantamento OVALE/TV Band Vale/Paraná Pesquisas e 48% no Ibope/TV Vanguarda.

Nas duas pesquisas, Felicio aparece com uma intenção de voto bem maior do que a soma dos outros 10 concorrentes. E também com um governo aprovado por 64% dos eleitores, como mostrou o Ibope. Ainda é cedo, mas é difícil imaginar, por enquanto, que essa disputa não seja decidida ainda no primeiro turno. Talvez apenas um fato novo seria capaz de impedir isso, mas nenhum desponta no horizonte.

O tom morno adotado pelos principais concorrentes de Felicio no horário eleitoral também só ajuda o tucano. Como convencer o eleitor de que você é melhor do que o prefeito atual se não é capaz de apontar eventuais falhas do governo?

Em Taubaté, a pesquisa teve um efeito contrário. Foi como riscar um fósforo e jogar em um tanque cheio de gasolina. Os três candidatos que apareceram empatados tecnicamente na ponta do levantamento Ibope/TV Vanguarda estavam confiantes antes da divulgação, mas a ordem do resultado surpreendeu alguns e teve efeito imediato nas campanhas.

Loreny (Cidadania), que apareceu numericamente em primeiro, com 21%, passou a ser alvo de incessantes ataques, principalmente virtuais – muitos desleais e sexistas, inclusive, como vídeos da candidata dançando ou fotos dela de biquíni. Os adversários ainda tentam colar em Loreny a imagem de que ela seria de esquerda, o que a candidata nega. A equipe da campanha diz estar tranquila com relação às fake news, mas em uma cidade extremamente conservadora, é difícil mensurar o impacto que esses temas podem ter.

José Saud (MDB), com 17%, tinha esperança de aparecer na ponta, mas traça uma estratégia de tentar crescer apenas nas últimas semanas, para não perder fôlego antes da reta final.

Eduardo Cursino (PSDB), com 14%, frustrou a equipe do governo Ortiz Junior (PSDB). A expectativa era de que o candidato tucano aparecesse mais à frente, até porque a pesquisa foi feita após 10 dias de horário eleitoral. Ato contínuo, a campanha intensificou duas ações: o esforço para colar em Cursino a imagem de Ortiz; e críticas (até com memes) a Loreny e Saud, que são chamados de aventureiros, sem experiência e ‘time do contra’.

‘Farra’ começou bem antes, como aponta o TCE

Em um intervalo de 10 anos, em ao menos oito deles foram detectadas irregularidades nos pagamentos de despesas com viagens oficiais na Câmara de Taubaté. E nem sou apenas eu que digo isso.

O escândalo da ‘Farra das Viagens’, revelado pelo jornal em julho de 2018, mostrou que 14 parlamentares da atual legislatura (13 vereadores e um suplente) aderiram a um esquema que visava engordar a verba que receberiam após os deslocamentos. Mas a fraude mostrada nas reportagens é referente apenas ao período de 2017 e 2018.

Esse esquema começou em 2017, então? Não, segundo o TCE (Tribunal de Contas do Estado). Pegando como base os oito anos anteriores, em ao menos seis deles o órgão detectou irregularidades nas despesas com viagens.

Na análise das contas de 2009, 2010 e 2011, o TCE fez apenas recomendações para que, nos exercícios seguintes, o Legislativo corrigisse as falhas. Nas contas de 2013, o órgão voltou a apontar irregularidades (apenas naquele ano, a Câmara pagou R$ 221 mil em diárias aos servidores). Por motivos diversos, as contas desse ano foram rejeitadas pelo TCE, o que deve fazer com que a vereadora Graça (PSD), que presidia o Legislativo em 2013, não concorra à reeleição em 2020, sob risco de ser barrada na Lei da Ficha Limpa. Nas contas de 2014, o TCE apontou “desproporção dos gastos com pagamento habitual de diárias” e falta de justificativa para um número tão elevado de diárias – nesse ano, apenas os servidores receberam 1.315 diárias, em um gasto total de R$ 237 mil. O presidente em 2014 era Carlos Peixoto, que morreu em 2018. As contas foram rejeitadas.

Um dos motivos para a rejeição das contas de 2015 foi o gasto desproporcional com diárias. Foram registradas 2.068 viagens no período (média de oito a cada dia útil), somando R$ 289 mil em gastos. Por isso, Digão (PP), que presidia a Casa naquele ano, teve que abortar sua pré-candidatura a prefeito em 2020.

Para revelar a ‘Farra’ de 2017 e 2018, o jornal precisou vencer uma batalha judicial contra a Câmara, que tentava manter escondidos os relatórios de viagens. Em outro processo, que tramita desde setembro de 2018, o jornal pede acesso aos documentos da legislatura passada, de 2013 a 2016. Já obtivemos vitórias na primeira e na segunda instâncias da Justiça, mas o Legislativo sempre recorre, em uma luta incessante contra a transparência.

Presidente da Câmara desde 2019, Boanerge dos Santos (PTB) assumiu a Casa com discurso de economia de gastos. Cortou carros, motoristas, viagens. E usa isso como bandeira de sua campanha à reeleição. Mas até agora não explicou por qual motivo o Legislativo insiste, em sua gestão, em lutar até o fim para não liberar as notas de viagens de 2013 a 2016.

A guerra dos partidos na corrida ao Paço

O prefeito de Taubaté, Ortiz Junior (PSDB), se destacou nas últimas eleições por se comportar, nos bastidores, como um enxadrista. Graças, em grande parte, ao seu braço direito Edsson Chacrinha, o tucano sempre soube onde posicionar as peças para garantir o maior apoio possível nas campanhas. Isso inclui desde o controle de associações de moradores de bairros até posturas agressivas para deixar políticos e partidos encurralados, tendo que escolher entre apoiar o grupo ou sofrer boicote nos anos seguintes.

Um exemplo claro disso ocorreu no segundo turno das eleições de 2012: em um ‘passe de mágica’, Mário Ortiz e Padre Afonso desistiram de apoiar Isaac do Carmo horas antes do anúncio e endossaram a candidatura de Ortiz.

Nas próximas semanas, no entanto, o tucano terá uma missão difícil pela frente: controlar uma ameaça de debandada da coligação que tenta montar para apoiar o candidato do governo à sua sucessão.

O foco do descontentamento é a escolha do vice da chapa. Nos bastidores, Ortiz se mostra irredutível para indicar Rosa Celano, que preside o Comitê Municipal de Enfrentamento ao Coronavírus. Com isso, a candidatura teria ‘chapa pura’, já que Rosa é do PSDB e o provável candidato a prefeito (Eduardo Cursino) também.

Ao menos três partidos do grupo pleiteiam mais espaço e fazem pressão para indicar o vice. Ou melhor, a vice, já que todos os nomes cotados são de mulheres. O PSD tenta emplacar Ana Paula Zarbietti, que é servidora da Prefeitura e radialista. O PL sugere Andreia Gonçalves, que foi secretária de Meio Ambiente no início do governo Ortiz. E o Republicanos faz lobby pela vereadora Vivi da Rádio.

Dos três partidos, o que tem tido posicionamento mais firme é o PSD: ou indica a vice ou abandona o barco. É uma legenda com dinheiro e tempo de TV. E que tem o atual vice-prefeito, Edson Oliveira.

Não se sabe se é blefe ou não. Mas, não sendo, já surge no horizonte até um provável novo destino para o PSD: coligar com o MDB e indicar o vice na chapa encabeçada por José Saud. Uma coligação, aliás, que tem tudo para contar também com Padre Afonso, que não deve levar adiante sua candidatura pelo PV.

Outra movimentação ocorrida nos últimos dias vem de três partidos que estudam formar uma ‘frente de direita’, composta por três atuais pré-candidatos: Capitão Souza (PRTB), Chico Oiring (PSC) e Gabriel Pinelli (Avante). A proposta é fazer uma pesquisa no fim de agosto: aquele com maior intenção de voto seria o candidato a prefeito, e o segundo seria o vice da chapa.

No momento, essas são as principais movimentações nos bastidores. Mas muita coisa pode mudar até as convenções, entre 31 de agosto e 16 de setembro. Novos ‘passes de mágica’ não são descartados.

As vitrines podem virar vidraças

Vitrine. Segundo o dicionário, trata-se de um “compartimento cuja face principal é envidraçada, no qual se expõem mercadorias”. Já no jargão político, o termo é usado para se referir às principais obras, projetos ou ações de um governo, àquelas de maior visibilidade, com potencial para serem exploradas entre os eleitores.

Nas últimas semanas, na região, manchas consideráveis apareceram nas vitrines dos prefeitos de São José dos Campos e Taubaté.

No caso de São José, a vitrine de Felicio Ramuth (PSDB) é o Arco da Inovação, a ponte estaiada construída no local na antiga rotatória do Colinas. O projeto foi apresentado pelo tucano em 2018, como uma aposta para solucionar os congestionamentos. Desde o início, especialistas em trânsito, Ministério Público e Defensoria Pública apontavam falhas. Diziam que uma ponte estaiada não era a melhor solução, e que a Prefeitura deveria ter estudado outras alternativas. Nada disso freou Felicio, que em abril desse ano liberou o tráfego no Arco, após um gasto de R$ 60,972 milhões.

Agora, veio a constatação. Designada pela Justiça em processo movido pelo MP e pela Defensoria, a UFABC (Universidade Federal do ABC) concluiu que a ponte estaiada “perderá a qualidade de suas funções já a partir de 2025” – ou seja, em quatro anos e meio já não será capaz de desafogar o trânsito no local.

A perícia também concluiu que o Arco tem capacidade de absorver apenas 12% a mais de veículos do que um cenário que contasse apenas com otimização semafórica. Ou seja, com gasto quase zero, somente reprogramando tempos de semáforos, seria possível obter resultado parecido.

E tudo isso sem contar a questão mal explicada do BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento). Como a obra não foi financiada pelo banco, ao contrário do que disse o governo Felicio até o fim de 2019, o recurso poderia ter sido aplicado em qualquer outra ação. Dava para construir 30 creches, com 300 vagas cada, por exemplo.

Em Taubaté, a vitrine de Ortiz Junior (PSDB) é o pacote de obras do CAF (Banco de Desenvolvimento da América Latina). Mas agora descobriu-se que o tucano mentiu ao dizer que havia uma espécie de seguro no empréstimo contra a alta do dólar, que limitaria a moeda americana a R$ 3,60 no ato do pagamento da operação. Ou seja, com o dólar nas alturas, a Prefeitura pode ter que pagar o dinheiro por um valor muito maior do que recebeu. E o pior, para Ortiz, é que o provável pré-candidato do PSDB à sucessão tem como principal ponto no currículo ser o ‘Pai do CAF’, já que o ex-secretário Eduardo Cursino era o gestor do programa desde o início.

A conclusão, na política, é: quando uma vitrine não tem a transparência necessária, pode virar uma vidraça..

Afunila disputa para definir o nome do PSDB em Taubaté

Um dos principais mistérios da política taubateana nos últimos oito anos está perto do fim. Quem será o candidato do governo Ortiz Junior (PSDB) à sucessão do tucano, que deixará o Palácio do Bom Conselho em dezembro?

A decisão, é óbvio, será tomada pela família Ortiz. E com grande probabilidade de sucesso nas urnas, como mostram os fatos. Desde 1983, Taubaté teve cinco diferentes prefeitos. Dois deles do clã Ortiz: o pai, José Bernardo, por três mandatos, e o filho, Junior, por dois. Os outros três prefeitos (Salvador Khuriyeh, Mário Ortiz e Roberto Peixoto) chegaram ao poder após indicação do velho Bernardo.

Dessa vez, a indicação caberá ao filho. E, nos corredores da prefeitura, ela já é considerada praticamente certa. Se nos últimos meses o nome de Eduardo Cursino já vinha ganhando força nos bastidores, na última semana a escolha ficou ainda mais evidente.

Dos secretários municipais que eram cotados para a disputa, apenas Cursino deixou a prefeitura antes do dia 4 de junho, prazo máximo para a desincompatibilização exigida pela Justiça Eleitoral nesse caso. Ou seja, nomes como dos secretários Claudio Macaé (Educação) e Johnny Bibe (Desenvolvimento e Inovação) estão fora da corrida.

Hoje, assessores do Palácio do Bom Conselho garantem que seria uma surpresa muito grande se Cursino não fosse o candidato. Com menos força, ainda correm por fora nomes como o do vereador Guará Filho (PSDB) e o de Rosa Celano, diretora de Saúde que tem ganhado destaque por comandar o Comitê Municipal de Enfrentamento à Covid-19. No caso de Rosa, o tempo corre contra. Para ser candidata, ela teria que deixar a prefeitura até o dia 4 de julho. Em plena pandemia, abandonar o combate ao vírus para embarcar em um projeto político poderia pegar muito mal.

Voltando a Cursino, o maior trunfo do ex-secretário de Governo e ex-secretário de Planejamento está nos bastidores. Ele é o nome indicado por Edsson Chacrinha, chefe de gabinete de Ortiz.

Desconhecido pelo eleitorado em geral, Chacrinha tem grande influência nas tomadas de decisões do prefeito. Foi ele quem coordenou as últimas três campanhas eleitorais de Ortiz – em 2010, para deputado estadual, e em 2012 e 2016, à prefeitura.

Nos últimos meses, Chacrinha costurou nos bastidores diversos apoios ao nome de Cursino. Alguns até inesperados, de políticos que eram cotados como pré-candidatos ao Bom Conselho. Tudo isso para convencer Ortiz de que ele é a melhor opção.

Na campanha, Cursino deve ser apresentado como o ‘pai do CAF’, em referência ao milionário pacote de obras que será usado como vitrine. Resta saber se isso será suficiente para que o eleitor também o veja como melhor opção..

Somos o que dizemos ou o que fazemos?

Nós somos o que dizemos ou o que fazemos? A pergunta é apenas uma mera provocação, já que tem resposta óbvia.

Mesmo assim, no Fla x Flu em que vivemos, no qual o eleitorado parece preferir o autoengano a assumir a inaptidão do candidato do espectro político de seu agrado, nem sempre é assim.

Com todos os fatos ocorridos durante os quase 30 anos de sua trajetória política, Jair Bolsonaro tinha algum predicado que permitisse considerá-lo como alguém que combateria bravamente a corrupção?

Vejamos: antes mesmo de virar presidente, trazia em seu currículo casos de funcionários fantasmas, nepotismo, rachadinha, recebimento indevido de verbas públicas, entre outros. Mesmo assim, bastou dizer que era contra a corrupção para cegar parte do eleitorado, que o elegeu mito e presidente.

Já no governo, novos episódios se multiplicaram. Aquele discurso do rigoroso combate à corrupção foi sendo deixado de lado à medida em que ministros se envolviam em denúncias gravíssimas. Também se acumulavam os casos em que o presidente usava seu poder em benefício próprio, seja para se vingar de quem lhe causou algum mal (como o fiscal do Ibama que havia aplicado uma multa no capitão em 2012), seja para tentar aliviar a barra dos seus filhos, que adoram se meter em confusão.

Ser contra a corrupção não foi a única mentira que Bolsonaro contou para se eleger. Outra foi dizer que era liberal na economia. Com isso, fechou o combo que agradou o mercado e o eleitorado de direita. No governo, para sustentar suas bandeiras, nomeou para a Justiça o ex-juiz federal Sergio Moro, que havia sido alçado ao posto de herói nacional com a Lava Jato, e para a Economia, Paulo Guedes.

Na última semana, Bolsonaro cansou de tentar manter as aparências. Escanteou Guedes, que ficou de fora da discussão do plano Pró-Brasil, elaborado por militares e que prevê R$ 30 bilhões em obras públicas para recuperar a economia (para desespero do ‘Posto Ipiranga’). E bateu de frente com Moro – para tentar interferir na autonomia da Polícia Federal, viu a cabeça do ‘superministro’ rolar.

A demissão de Moro parece ter sido suficiente para fazer parte do eleitorado bolsonarista acordar. Alguns políticos e empresários ameaçam tirar o apoio ao governo. Mas será o bastante para marcar o início do fim dessa péssima gestão?

Pela lógica, não adianta dizer que é contra a corrupção, se seus atos mostram o contrário. Mas o quanto isso realmente importa para os brasileiros? Até agora, o eleitorado tem aceitado com extrema passividade o discurso dos políticos. E isso vale não apenas para o presidente. Bolsonaro é somente um exemplo de como, por pura conveniência, escolhemos quem irá nos enganar, de eleição a eleição..

Coronavírus e os exemplos mundo afora

Em tempo de incertezas, uma coisa é indiscutível. Na escalada da disseminação do novo coronavírus pelo mundo, o Brasil deu ‘sorte’. É até difícil empregar essa palavra em meio a uma pandemia que já contaminou 530 mil pessoas e já provocou mais de 24 mil mortes, mas é fato.

Na China, por exemplo, onde foi identificado o primeiro caso de Covid-19, o alerta à OMS (Organização Mundial de Saúde) foi enviado no dia 31 de dezembro. Na Coreia do Sul, os primeiros casos datam de 20 de janeiro. Nos Estados Unidos, de 22 de janeiro. Na Itália, de 31 de janeiro. No Brasil, de 26 de fevereiro.

Ou seja, o Brasil teve praticamente dois meses para observar como os demais países combatiam a doença. E se preparar. Com um detalhe importantíssimo: pudemos ver, de camarote, quais estratégias deram certo. E, principalmente, quais deram errado.

Agora, passado pouco mais de um mês do registro do primeiro caso, o Brasil discute – em um debate lançado pelo presidente Jair Bolsonaro, preocupado com as consequências econômicas – se as medidas adotadas pelos governos estaduais (o rigoroso isolamento social) são necessárias ou exageradas.

Diante desse questionamento, o que nos dizem os exemplos mundo afora? País com o maior número de mortes pelo Covid-19 até agora, a Itália relutou em adotar medidas de quarentena. Quando surgiram os primeiros casos, os governantes italianos optaram por dar mais atenção aos apelos empresariais do que às autoridades de saúde. Após milhares de vidas serem perdidas, a lamentação. Essa semana, o prefeito de Milão, Giuseppe Sala, se disse arrependido por ter embarcado, no fim de fevereiro, em uma campanha que dizia que a cidade não podia parar. Por outro lado, a China, que começou a adotar medidas de isolamento logo em janeiro (após, é preciso destacar, ter agido de forma negligente no início), encontra-se hoje no seleto grupo de países que conseguiram estabilizar a disseminação da doença.

Mais um exemplo importante surgiu essa semana, e logo de um país em que o governo foi duramente criticado pela população por retardar a adoção de medidas de isolamento. O primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, foi diagnosticado com Covid-19. Menos de um mês atrás, ele disse, orgulhoso, que havia visitado um hospital onde havia pacientes com o novo coronavírus e que havia apertado a mão de todo mundo. Provavelmente agora já esteja arrependido.

Resumindo: até agora, os melhores resultados foram obtidos em países que trataram um problema de saúde pública seguindo as orientações (vejam só, que surpresa) de especialistas em saúde pública. E os governantes que ignoraram isso conseguiram apenas amplificar o impacto da doença. Que rumo tomaremos aqui?.